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Crédito: Reprodução da Internet
Entre todas as certezas da vida, apenas uma é absolutamente inescapável: a morte. E, no entanto, poucos vivem como se isso fosse verdade. Os santos, por outro lado, viveram cada dia como se fosse o último, não por obsessão mórbida ou ansiedade, mas por uma vigilância espiritual constante e uma consciência aguda do fim último da vida humana: a visão beatífica de Deus ou a separação eterna d’Ele. Santo Afonso Maria de Ligório, Doutor da Igreja, escreveu com veemência: “O pensamento da morte é o mais eficaz de todos para nos fazer desprezar os bens da terra e amar somente os bens eternos.“
A Igreja Católica ensina, com clareza, que após a morte vem o juízo (cf. Hb 9,27). Cada alma é julgada imediatamente (juízo particular) e, no fim dos tempos, todas serão julgadas diante de todos (juízo universal). Os santos levavam isso a sério. Santa Teresa d’Ávila dizia: “Tudo passa, Deus não muda. A paciência tudo alcança. Quem a Deus tem, nada lhe falta. Só Deus basta.” Essa frase, longe de um consolo poético, é a síntese de uma alma preparada para encontrar o Senhor a qualquer momento.
Para os santos, preparar-se para a morte começava pela confissão frequente. São João Bosco recomendava: “Confessem-se bem e frequentemente; a confissão é o remédio para a alma.” A doutrina católica ensina que o pecado mortal separa a alma de Deus e a coloca em perigo de condenação eterna. Por isso, a preparação para a morte começa pela vida em estado de graça, o que significa estar reconciliado com Deus.
O Catecismo da Igreja Católica (n. 1452-1453) reforça o valor do arrependimento sincero e do sacramento da penitência. São Pio X aconselhava os fiéis a fazerem exame de consciência diário, não apenas como preparação para a confissão, mas como exercício de humildade e vigilância interior. Sem essa prática, a alma adormece em si mesma, esquecendo que pode ser chamada ao tribunal divino a qualquer instante.
Todos os grandes santos tinham uma coisa em comum: uma terníssima devoção à Santíssima Virgem. São Luís Maria Grignion de Montfort, no Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, ensina que aqueles que se consagram totalmente a Maria podem esperar uma assistência especial na hora da morte. Ele afirma: “O mais terrível inimigo que Deus pôs contra o demônio é Maria, sua Mãe Santíssima.“
A oração da Ave-Maria, que todos aprendem desde pequenos, traz no seu final o pedido mais importante de todos: “rogai por nós, pecadores, agora e na hora da nossa morte“. A Igreja, em sua sabedoria, fez desta súplica mariana o último recurso dos moribundos. Santo Afonso de Ligório recomendava rezar diariamente por uma boa morte: “A salvação eterna depende da última hora. Essa hora decide tudo: ou salvação ou condenação.”
O costume cristão de pedir os últimos sacramentos — Confissão, Unção dos Enfermos e Comunhão (Viático) — é uma prática de fé profunda que muitos, hoje, negligenciam. A Unção dos Enfermos não é um sacramento “para quem já está morrendo”, mas para quem se encontra em risco sério. É uma graça especial de fortaleza, paz e coragem para enfrentar as dificuldades próprias da morte (CIC, 1520-1523).
São Carlos Borromeu, arcebispo de Milão, visitava os doentes pessoalmente para lhes administrar os sacramentos. Ele ensinava que morrer sem os últimos sacramentos era uma tragédia, porque era como partir para uma viagem sem bênção, sem provisões, sem mapa. O Concílio de Trento (Sess. XIV) confirmou a importância da Unção dos Enfermos como verdadeiro sacramento instituído por Cristo.
Os Novíssimos — morte, juízo, inferno e paraíso — sempre foram, na espiritualidade tradicional da Igreja, o coração da preparação para uma boa morte. São Francisco de Sales escreve em sua Introdução à vida devota que meditar sobre os Novíssimos é “como acender uma vela na escuridão da vida presente“. O próprio Cristo nos exorta: “Estai preparados, porque o Filho do Homem virá na hora em que não pensais” (Lc 12,40).
A meditação da morte purifica os desejos desordenados, relativiza as preocupações mundanas e eleva a alma para as coisas do alto. Os santos ensinavam isso com insistência. Santa Catarina de Sena, Doutora da Igreja, dizia: “É doce morrer, quando se viveu com Cristo.” Ou seja, quem vive como cristão não teme a morte, porque ela é apenas uma travessia rumo ao Amado.
Muitos santos escreveram o que se pode chamar de “testamento espiritual”, que não se trata de deixar heranças materiais, mas conselhos, orações, exemplos e súplicas pela perseverança dos que ficam. Santa Mônica, mãe de Santo Agostinho, antes de morrer, disse ao filho: “Enterrem este corpo onde quiserem. Não se preocupem com isso. Só vos peço que vos lembreis de mim no altar do Senhor.”
Esse pedido não é apenas poético. A Santa Missa, oferecida pelas almas dos fiéis defuntos, é a mais poderosa intercessão possível, e a maior caridade para com os que partiram. Por isso, os santos exortavam seus filhos espirituais a oferecerem Missas após sua morte, confiando-se à misericórdia de Deus e à comunhão dos santos. A morte de um justo não é fim, mas missão continuada: é oferecer à Igreja o testemunho de uma alma que, mesmo em agonia, permaneceu fiel.
Por fim, os santos não desprezavam os meios humanos de preparação. Muitos viviam com a casa em ordem, os deveres de estado bem cumpridos e a alma sem pendências. São José, patrono da boa morte, morreu nos braços de Jesus e Maria. É por isso que é invocado com confiança: porque morreu como todos nós desejaríamos morrer.
A tradição católica, expressa em documentos como o Ritual Romano e o Catecismo Romano, ensina que uma boa morte se prepara com uma boa vida. Isso inclui perdoar os inimigos, restituir injustiças, praticar obras de misericórdia e manter o coração desapegado das vaidades do mundo.
A boa morte não é um acidente de sorte, mas a coroação de uma vida bem vivida. Os santos nos mostram que morrer bem é possível — mas exige esforço, vigilância e confiança na misericórdia divina. Quem vive com os olhos no céu, não teme o fim terreno. Como dizia Santo Inácio de Loyola: “Age como se tudo dependesse de ti, mas confia como se tudo dependesse de Deus.“
A morte, então, não é o fim. É a hora da verdade. É quando caem todas as máscaras, e só permanece o que fomos diante de Deus. Que cada católico peça, todos os dias, o dom da perseverança final. E que repita com os santos, ao fim de tudo: “Jesus, Maria, José, entrego-vos o meu coração e a minha alma. Jesus, Maria, José, assisti-me na última agonia. Jesus, Maria, José, expire em paz convosco a minha alma.“