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Crédito: Alexey Venetsianov
A Extrema-Unção — ou, como se convencionou chamar após o Concílio Vaticano II, “Unção dos Enfermos” — permanece sendo um dos sacramentos menos compreendidos pelos fiéis. Embora muitos saibam que ele é administrado a quem está gravemente doente ou próximo da morte, poucos conhecem o alcance espiritual de suas graças, especialmente no que diz respeito à remissão dos pecados, inclusive dos pecados veniais. O presente artigo busca, com fidelidade à doutrina, ao Magistério e à Tradição da Igreja Católica Apostólica Romana, esclarecer esta questão.
A Unção dos Enfermos é um dos sete sacramentos instituídos por Nosso Senhor Jesus Cristo. A base bíblica do sacramento encontra-se na Epístola de São Tiago:
“Está alguém entre vós doente? Chame os presbíteros da Igreja, e orem sobre ele, ungindo-o com óleo em nome do Senhor. E a oração da fé salvará o enfermo, e o Senhor o aliviará, e, se estiver em pecados, ser-lhe-ão perdoados.” (Tiago 5,14-15)
Essa passagem, claramente sacramental, revela a intenção divina de que a Igreja acompanhe os fiéis também na enfermidade, oferecendo-lhes não só consolo físico e espiritual, mas também a graça da purificação.
O Concílio de Trento (1545-1563), diante das heresias protestantes que negavam a eficácia sacramental da Extrema-Unção, definiu de forma solene:
“Este sacramento confere graça, apaga os pecados e alivia a alma do enfermo.” (Concílio de Trento, Sessão XIV, cânon 2)
A Igreja, portanto, afirma com clareza que a Unção dos Enfermos possui verdadeira eficácia para a remissão dos pecados.
A doutrina católica ensina que o pecado pode ser mortal ou venial. O Catecismo da Igreja Católica (CIC) descreve os pecados veniais como ofensas leves que não rompem a amizade com Deus, mas enfraquecem a graça santificante na alma (CIC, 1862-1863).
A Unção dos Enfermos apaga os pecados veniais? A resposta, com base na Tradição e no Magistério, é um claro “sim”. Não apenas os pecados veniais são perdoados, mas, em circunstâncias particulares, até os pecados mortais podem ser remitidos caso o enfermo, em estado de inconsciência ou incapaz de confessar-se, tenha, ao menos implicitamente, a contrição.
O Catecismo é explícito:
“Se o doente não pôde confessar-se, a Unção dos Enfermos lhe concede o perdão dos pecados, se ao menos tinha o arrependimento, mesmo implícito.” (CIC, 1452 e 1520-1523)
São Tomás de Aquino, no seu monumental trabalho, a Suma Teológica, também confirma essa verdade:
“A Unção dos Enfermos confere graça, perdoa pecados e, quando for útil para a salvação da alma, também restaura a saúde corporal.” (S.Th., Suplemento, q. 30, a.1)
A remissão dos pecados mortais por este sacramento não substitui o preceito da Confissão quando esta for possível. O fiel que está consciente e em estado de pecado grave deve, antes de tudo, buscar o sacramento da Penitência. O Concílio de Trento ensina:
“Não se deve receber este sacramento com desprezo, mas com devoção; e é conveniente que o enfermo se confesse antes, se puder.” (Sessão XIV, cap. 3)
No entanto, no caso de um doente que não esteja em condições de se confessar, a Igreja supre com a Unção, confiando na misericórdia de Deus e na contrição interior (mesmo que imperfeita) que o enfermo possa ter.
O Catecismo (CIC, 1520-1523) lista com clareza os efeitos espirituais desse sacramento:
Ou seja, ao receber a Unção dos Enfermos em estado de contrição, mesmo sem a Confissão sacramental, o fiel recebe o perdão de todos os pecados veniais e, dependendo das circunstâncias, também dos mortais.
O documento Sacrosanctum Concilium (n. 73) orientou corretamente uma pastoral mais aberta ao uso da unção para enfermos não apenas em perigo imediato de morte. No entanto, a Tradição sempre viu o momento da extrema gravidade — e especialmente a hora da morte — como o ápice natural da administração desse sacramento.
O Papa São João Paulo II, na Carta Apostólica Dolentium Hominum (1983), reafirma que a Unção é, antes de tudo, um sacramento de fortaleza para os momentos mais críticos da vida:
“O sacramento da Unção dos Enfermos é uma celebração litúrgica e comunitária, sendo um meio eficaz de salvação para o enfermo, não apenas na sua dimensão corporal, mas sobretudo espiritual.”
A Extrema-Unção — ou Unção dos Enfermos — é, de fato, um sacramento de misericórdia, consolo e esperança. A Igreja, fiel ao mandato de Cristo, oferece ao fiel enfermo não apenas um conforto espiritual, mas uma verdadeira e eficaz absolvição de pecados veniais e, em casos extraordinários, até mesmo mortais.
Num tempo em que muitos católicos perderam a noção da gravidade do pecado e da necessidade da graça sacramental, é urgente recuperar a compreensão tradicional e profunda sobre o valor da Unção dos Enfermos.
Ela não é um mero ritual de despedida ou uma simples oração de conforto. É uma fonte real de graça santificante, capaz de preparar a alma para o encontro definitivo com Deus.