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Crédito: Christopher Furlong/Getty Images
O uso de telas por crianças, prática cada vez mais comum na rotina familiar, tem se tornado motivo de preocupação entre especialistas em saúde, educação e desenvolvimento infantil. Estudos recentes apontam para uma série de consequências adversas associadas à superexposição a dispositivos eletrônicos, que vão desde atrasos no desenvolvimento da linguagem até impactos na saúde mental, qualidade do sono e habilidades motoras.
A primeira infância, período crítico para o desenvolvimento cerebral e emocional, requer estímulos sensoriais, interação social e brincadeiras livres. No entanto, quando esse tempo é substituído por horas em frente a telas — sejam celulares, tablets ou televisores — o impacto pode ser significativo.
De acordo com a professora Lígia Pertence, do Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), crianças com menos de dois anos que fazem uso frequente de telas têm mais chance de apresentar atrasos na fala. “A linguagem se constrói na troca, no contato com a voz, o olhar e as expressões do outro. A interação com a tela é passiva e não proporciona esse tipo de estímulo”, afirma.
Essas observações são respaldadas por dados internacionais. Um estudo publicado pela revista JAMA Pediatrics mostrou que crianças pequenas expostas a telas por períodos prolongados apresentam déficits nas habilidades linguísticas e menor vocabulário expressivo, se comparadas a outras que interagem mais com seus cuidadores e o ambiente.
Além dos aspectos cognitivos, o uso excessivo de dispositivos digitais também compromete o desenvolvimento físico. Uma pesquisa do Departamento de Psiquiatria da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp), que avaliou 900 crianças entre 4 e 6 anos, revelou que aquelas com mais de duas horas diárias de exposição a telas demonstraram desempenho motor inferior ao esperado para a faixa etária.
Atividades motoras básicas como correr, pular e manusear objetos são essenciais nessa fase da vida, tanto para o desenvolvimento neuromuscular quanto para a socialização. “O tempo que deveria ser usado para explorar o corpo e o mundo está sendo tomado por uma rotina sedentária, muitas vezes isolada, que contribui não só para déficits motores, mas também para problemas como obesidade infantil e postura inadequada”, alerta a equipe responsável pelo estudo.
Outro impacto relevante da exposição às telas é o comprometimento do sono infantil. A luz azul emitida por celulares e outros dispositivos inibe a produção de melatonina, o hormônio regulador do sono, dificultando o adormecer e prejudicando a qualidade do descanso noturno. “O sono é essencial para o crescimento e a consolidação da memória. Quando ele é interrompido ou insuficiente, as consequências aparecem no comportamento, no rendimento escolar e no humor da criança”, explica a psicóloga Maria Peralta.
O uso abusivo de tecnologia também tem sido associado a problemas emocionais. Pesquisas apontam aumento nos índices de ansiedade, depressão e irritabilidade entre crianças e adolescentes com maior tempo de tela. A limitação das interações reais, o conteúdo consumido de forma ininterrupta e a comparação social gerada por redes digitais estão entre os fatores que contribuem para esse cenário.
Frente aos riscos identificados, instituições como a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e a Academia Americana de Pediatria (AAP) estabeleceram diretrizes para o uso de telas na infância. As recomendações da SBP são:
Crianças até 2 anos: evitar totalmente o uso de telas, salvo em chamadas de vídeo com supervisão;
De 2 a 5 anos: limite de até 1 hora por dia, com supervisão e conteúdo apropriado;
De 6 a 10 anos: entre 1 e 2 horas diárias, com regras claras;
De 11 a 18 anos: até 3 horas por dia, com equilíbrio entre atividades online e offline.
Além das limitações de tempo, especialistas destacam a importância de oferecer alternativas que estimulem o desenvolvimento integral das crianças. Atividades ao ar livre, jogos de tabuleiro, leitura, atividades artísticas e convivência familiar são ferramentas eficazes para substituir o tempo de tela e promover vínculos mais saudáveis.
Maria Peralta lembra ainda que o exemplo dos adultos tem papel decisivo. “Não adianta impor limites se os pais estão o tempo todo no celular. As crianças aprendem muito mais pelo que veem do que pelo que ouvem”, pontua.
Embora as tecnologias digitais façam parte da realidade atual, seu uso consciente deve ser uma prioridade para famílias e educadores. O desafio é encontrar um ponto de equilíbrio entre os benefícios que a tecnologia pode oferecer — como acesso a conteúdos educativos e conexão com pessoas distantes — e os cuidados necessários para que ela não substitua experiências insubstituíveis da infância, como brincar, explorar, interagir e imaginar.
Preservar o tempo da criança longe das telas é preservar seu direito ao desenvolvimento saudável, ao aprendizado significativo e ao bem-estar emocional.