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Crédito: Reprodução da Internet
O Vaticano vive dias de expectativa. Em breve, dois jovens que, em épocas distintas, encarnaram de maneira radical a beleza da fé católica serão elevados às honras dos altares: Carlo Acutis, falecido em 2006, e Pier Giorgio Frassati, morto em 1925. Suas imagens já circulam publicamente em Roma e em diversas dioceses do mundo, antecipando a festa de canonização que promete reunir milhares de fiéis na Praça de São Pedro. Mais que um evento, trata-se de um marco pastoral: dois rostos jovens, contemporâneos e complementares, se tornam para a Igreja inteira exemplos vivos do chamado universal à santidade proclamado no Concílio Vaticano II (Lumen Gentium, cap. V).
Na linguagem popular, canonizar significa “declarar santo”. Mas na tradição católica, o termo vai além. O Papa, em nome da Igreja, insere o novo santo no cânon da liturgia, ou seja, no rol oficial dos que podem ser venerados em todo o mundo. É um ato solene, irreformável, que implica não apenas reconhecimento de virtudes heróicas, mas também certeza moral da presença do novo santo no Céu. O processo é disciplinado pela constituição apostólica Divinus perfectionis Magister, de João Paulo II (1983), e pelo Código de Direito Canônico, que preveem investigações detalhadas, coleta de testemunhos e, via de regra, a comprovação de milagres obtidos por intercessão do candidato.
Carlo Acutis era um adolescente apaixonado pela informática. Ao invés de se perder em distrações, usou a tecnologia como ferramenta de evangelização, construindo um site que catalogava milagres eucarísticos pelo mundo. Sua frase — “A Eucaristia é a minha Aautoestrada para o Céu” — tornou-se um lema para milhares de jovens.
Pier Giorgio Frassati, por sua vez, era um estudante de engenharia em Turim, esportista e montanhista, conhecido por servir os pobres com simplicidade e alegria. Chamado por Pio XI de “o homem das oito bem-aventuranças”, morreu aos 24 anos, vítima de poliomielite, deixando atrás de si um rastro de caridade concreta.
Um, apaixonado pelo altar e pela tela do computador; o outro, pelo monte e pelo pobre. Ambos, contudo, beberam da mesma fonte: Cristo vivo nos sacramentos.
A exposição pública de imagens e relíquias antes de uma canonização não é novidade. A Igreja sempre fez uso do visível para educar na fé: ícones, procissões, pinturas, relicários. O Concílio de Trento, em sua defesa do culto aos santos, reafirmou a legitimidade de venerar suas imagens como meio de suscitar devoção. O que acontece hoje, portanto, está enraizado numa prática antiga: o rosto dos futuros santos é proposto aos fiéis para que estes descubram neles exemplos concretos de seguimento de Cristo.
No entanto, é preciso discernimento. A imagem não pode se tornar objeto de culto em si, mas ponte que conduz a Cristo. Como recorda o Catecismo (§957), “a comunhão com os santos nos une a Cristo, de quem manam toda graça e a própria vida do povo de Deus”.
Vivemos tempos em que a juventude é associada ao efêmero, ao consumo e à descrença. Nesse cenário, a Igreja apresenta dois jovens santos como prova de que a santidade não é uma utopia. A Christus Vivit, exortação apostólica do Papa Francisco sobre os jovens, já afirmava: “O Senhor chama cada um de vocês à santidade” (n. 67). O testemunho de Carlo e Pier Giorgio confirma, de modo concreto, essa convocação. Não são heróis distantes, mas rapazes que viveram paixões, amizades, estudos — e escolheram a Deus no ordinário. É um recado incisivo: não é preciso esperar a velhice para ser santo.
Não se pode ignorar um risco: transformar santos em celebridades. O Vaticano já autorizou selos postais, peregrinações de relíquias, banners e souvenires. Isso é lícito quando bem orientado, pois pode educar e aproximar. Mas é perigoso se banalizar. O culto dos santos, ensina o Catecismo (§828), não deve substituir o culto a Deus, mas conduzi-lo. A santidade é radicalidade evangélica, não marketing.
Ao canonizar, a Igreja não apenas reconhece a santidade, mas propõe modelos. Isso tem efeito pastoral imediato: as paróquias poderão celebrar liturgicamente os novos santos; famílias terão intercessores próximos; jovens encontrarão inspiração em figuras com quem se identificam. Além disso, a canonização é também ato missionário: o testemunho de Acutis e Frassati atravessa fronteiras, fala ao católico e ao não crente, mostra que a fé pode ser vivida no século XXI com frescor e coerência. Não é exagero dizer que essa dupla canonização é, em si, um gesto evangelizador.
Ao contrário do que muitos pensam, a canonização de jovens não é inovação do século XXI. Santa Inês, Santa Maria Goretti e São Domingos Sávio já haviam mostrado ao mundo que a juventude pode ser fértil em virtudes. O que há de novo aqui é a linguagem: Acutis, com sua paixão pela internet, dialoga com o século digital; Frassati, com seu amor pelos esportes e pela montanha, comove num tempo de busca pela autenticidade. A Igreja, sem alterar a essência, apresenta santos que falam a linguagens diversas. É a tradição que se renova sem se trair.
Carlo Acutis e Pier Giorgio Frassati serão canonizados, e a Igreja inteira se alegra. Mas o essencial não é a solenidade, nem as imagens, nem os souvenires. O essencial é a lição: a santidade é possível hoje, no cotidiano, no estudo, no esporte, no trabalho e até mesmo no uso da internet. O Catecismo (§2013) insiste: “Todos os fiéis, de qualquer estado ou condição, são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade”.
Do teclado ao morro, de Assis a Turim, esses jovens nos recordam que a vocação mais radical que existe é a santidade. Cabe a nós não apenas admirar, mas imitar.