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Crédito: Reprodução da Internet
O relato da Visitação está no Evangelho segundo São Lucas (Lc 1,39-56). Após o anúncio do Anjo Gabriel e a aceitação generosa de Maria (“Eis aqui a serva do Senhor”), a Virgem “pôs-se a caminho e dirigiu-se apressadamente à região montanhosa, a uma cidade de Judá” (Lc 1,39).
Essa “pressa” — tantas vezes destacada por santos e papas — não é fruto de ansiedade, mas da urgência da caridade. Como comenta o Papa Bento XVI:
“Maria partiu apressadamente. Por quê? Porque a alegria da salvação não pode esperar. Quem experimentou em si o amor de Deus sente o impulso irresistível de levá-lo aos outros.”
(Homilia em Mariazell, 8 de setembro de 2007)
Maria não vai a Isabel para falar de si, mas para servir. A Mãe do Salvador torna-se a primeira missionária cristã: leva Cristo, ainda oculto em seu ventre, a quem dela se aproxima.
A presença de Jesus, mesmo ainda no ventre da Mãe, transforma a realidade. Ao ouvir a saudação de Maria, “a criança estremeceu de alegria no seu ventre” (Lc 1,44). São João Batista, ainda em gestação, reconhece a presença do Messias e exulta. É o primeiro sinal da graça santificante agindo por meio da presença do Verbo encarnado.
Como destaca São João Paulo II na encíclica Redemptoris Mater:
“Na casa de Isabel, a voz de Maria e a presença de Cristo no seu seio provocam, como narra o Evangelho, a exultação de João, que ‘salta’ no ventre da mãe (cf. Lc 1,44) e, enchendo-se Isabel do Espírito Santo, bendiz a ‘mãe do seu Senhor’ (Lc 1,43).”
(Redemptoris Mater, n. 12)
Maria é reconhecida, desde o início, como Mãe do Senhor — não por glória própria, mas pela presença de Cristo nela. A exultação de João é a primeira resposta humana à encarnação de Deus.
Após a saudação de Isabel, Maria entoa o Magnificat, hino de louvor profundamente enraizado nas Escrituras, especialmente nos Salmos e no Cântico de Ana (cf. 1Sm 2,1-10). É um dos textos mais revolucionários e contemplativos de toda a Bíblia: exalta os humildes, denuncia a soberba e proclama a fidelidade de Deus à Sua promessa.
“A minha alma engrandece o Senhor,
e o meu espírito exulta em Deus, meu Salvador…”
(Lc 1,46-47)
Para o Papa Paulo VI, este cântico é o “espelho da alma de Maria” e uma síntese do Evangelho:
“O Magnificat é ao mesmo tempo um cântico de louvor, uma proclamação profética, uma oração contemplativa e uma profissão de fé.”
(Marialis Cultus, n. 18)
A festa da Visitação foi estabelecida no calendário litúrgico universal por iniciativa do Papa Urbano VI, em 1389, como pedido de oração pela unidade da Igreja em tempos de cisma. A data original era 2 de julho, mas com a reforma litúrgica do Concílio Vaticano II, foi deslocada para 31 de maio, encerrando o mês tradicionalmente dedicado a Maria.
O objetivo teológico da festa, segundo o Diretório sobre a Piedade Popular e a Liturgia (2001), é:
“Comemorar a visita de Maria à sua prima Isabel e o encontro entre o Precursor e o Salvador, ainda no seio de suas mães, representando também a visita do Senhor ao seu povo.”
(n. 123)
Assim, a festa da Visitação une a piedade mariana à cristologia mais profunda: é o Cristo quem visita, por meio de sua Mãe.
A Visitação é um mistério que nos desafia. Em tempos marcados por egoísmo, pressa vazia e busca de visibilidade, Maria nos mostra a “pressa do amor silencioso”, que leva Cristo ao outro sem buscar aplausos.
Para nós, católicos, este episódio é um chamado a:
O Papa Francisco, na homilia de 31 de maio de 2013, disse:
“A alegria da Visitação é a alegria do encontro, da presença, da escuta. É a alegria da fé. É a alegria que nasce da certeza de que Deus está no meio do seu povo.”
Celebrar a Visitação não é apenas lembrar um episódio bonito do Evangelho. É reavivar em nós a espiritualidade do encontro. Em Maria, vemos uma fé operante, humilde, silenciosa, mas absolutamente ativa. A Mãe de Deus não se contenta em receber: ela parte, ela leva, ela serve. E tudo isso porque Cristo está nela.
É preciso reaprender essa lógica cristã — onde a presença de Deus gera movimento, caridade e missão. Que hoje, como ontem, cada católico possa “ir apressadamente” ao encontro do outro, como Maria, levando a presença transformadora de Jesus.