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Crédito: Reprodução da Internet
Entre as muitas figuras proféticas do Antigo Testamento, Zacarias ocupa um lugar de destaque pela ousadia com que falou a um povo cansado, quase sem esperança, recém-saído do exílio babilônico. Enquanto muitos judeus olhavam para as ruínas de Jerusalém e se perguntavam se Deus ainda estava presente, Zacarias surgiu como testemunha da memória divina: “O Senhor se lembra”. Seu próprio nome já era uma profecia, um lembrete de que a fidelidade de Deus jamais se perde no esquecimento humano.
A liturgia ao recordá-lo no dia 6 de setembro faz mais do que homenagear um personagem bíblico antigo; ela traz à nossa vida concreta a certeza de que o Senhor não abandona, mesmo quando o coração humano se vê afogado por desilusões.
Zacarias não foi um teórico da fé. Ele falava para homens e mulheres que literalmente carregavam pedras para reconstruir o templo, entre cansaço e desânimo. Suas visões noturnas — cavalos que percorrem a terra, o sacerdote purificado, o candelabro de ouro — não são peças de literatura fantástica, mas metáforas que apontam para a reconstrução espiritual que deveria acompanhar a reconstrução material.
O Concílio Vaticano II lembra na constituição Dei Verbum que os profetas eram “homens a quem Deus confiou a sua palavra para transmitir aos outros” (DV 2). Zacarias foi precisamente isso: voz de Deus entre ruínas humanas, convidando o povo a não se prender ao passado, mas a enxergar além, para o futuro messiânico.
O versículo mais famoso de Zacarias é proclamado na liturgia do Domingo de Ramos: “Eis que o teu Rei vem a ti, justo e vitorioso, humilde, montado num jumentinho” (Zc 9,9). É quase impossível ouvir essa leitura e não pensar imediatamente em Jesus entrando em Jerusalém.
Aqui está o núcleo da mensagem: a realeza de Deus se manifesta não pela violência, mas pela mansidão. Enquanto o mundo antigo venerava generais vitoriosos em cavalos de guerra, Zacarias ousou anunciar um Rei que chegaria no animal dos pobres, do trabalho, da vida comum.
Os Padres da Igreja sempre leram essa passagem como anúncio direto de Cristo. Santo Agostinho via nesse contraste — vitória e humildade unidas — o escândalo e a beleza da cruz. O Catecismo retoma essa linha ao ensinar que “as figuras do Antigo Testamento encontram o seu cumprimento em Cristo” (CIC 1964).
Talvez um detalhe passe despercebido a muitos: Zacarias é venerado como santo. O Martyrologium Romanum o recorda neste dia, e a tradição católica reconhece nos profetas do Antigo Testamento verdadeiros santos, participantes da mesma economia da salvação. Não há ruptura: os que aguardaram o Messias foram santificados pela mesma graça que nós recebemos em plenitude em Cristo.
Esse reconhecimento mostra a coerência da fé católica: não existe um “Deus do Antigo Testamento” e outro “do Novo”. Existe o mesmo Senhor, que guia a história, que fala, que promete e cumpre. Celebrar Zacarias é celebrar a fidelidade inquebrantável de Deus ao seu povo.
O que pode nos dizer um profeta de 2.500 anos atrás em pleno 2025? Muito mais do que pensamos.
Primeiro, Zacarias denuncia a tentação da desconfiança. Quantas vezes olhamos ao nosso redor e vemos ruínas: crises sociais, divisões na Igreja, famílias fragmentadas. A mensagem é clara: Deus não esquece, Deus se lembra, Deus age.
Segundo, ele nos obriga a repensar nossa noção de poder. O Rei que vem montado num jumento não cabe nas lógicas políticas do mundo. A Igreja, se quiser ser fiel ao seu Senhor, não pode buscar cavalos de guerra, mas a força da humildade e do serviço.
Terceiro, Zacarias recorda que reconstruir é tarefa espiritual. Não basta levantar paredes, erguer templos ou multiplicar iniciativas pastorais; sem conversão, tudo se torna vazio. O profeta insiste: “Convertei-vos a mim, e eu me voltarei para vós” (Zc 1,3). Essa palavra é tão atual hoje como foi em Jerusalém no século VI a.C.
A Igreja conserva a memória de Zacarias na sua liturgia porque nela não há nostalgia: há atualização. Quando o sacerdote proclama a leitura de Zacarias no Domingo de Ramos, ou quando hoje lembramos o santo profeta no calendário, a Palavra se torna presente, viva, eficaz.
O Catecismo (CIC 702) afirma que a missão de Cristo foi “preparada nas figuras e profecias do Antigo Testamento”. Zacarias é uma dessas figuras, um elo que aponta para a encarnação. O santo profeta nos ajuda a ler o hoje da nossa vida à luz do eterno de Deus.
Zacarias, celebrado a 6 de setembro, não é apenas uma recordação bíblica. Ele é prova de que Deus não esquece, de que a humildade é caminho de vitória, de que a reconstrução exige fé.
Em tempos de descrença e de pressa, Zacarias reaparece como amigo e mestre: lembra-nos que o Senhor cumpre o que promete. Se olharmos com olhos de fé, perceberemos que o Rei humilde continua entrando nas nossas Jerusaléns pessoais, pedindo apenas espaço para reinar com mansidão.
Celebrar Zacarias é escolher confiar. E confiar, como ele ensinou, é deixar que a última palavra da história não seja a das ruínas, mas a da promessa cumprida.